Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Último post

O "Regresso ao Abismo" acaba aqui. Para além de ter sido um projecto vitimado pela minha falta de atenção nos últimos anos, não tinha rumo nem objecto claros. Por isso, passa definitivamente a chama para o Movimentos, o meu blog no tumblr. com, bastante mais vocacionado para as minhas notas ocasionais, e o The Spoked Wheel, integralmente em Ingês e dedicado aos meus interesses mais académicos.

Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Loucura, irresponsabilidade e sede de poder

Não vou discorrer muito sobre o conteúdo político das declarações de ontem do Presidente da República, por duas razões: (1) estou chocado com a incapacidade de Cavaco Silva compreender o alcance destrutivo das suas “dúvidas” e (2) não consigo perceber como é possível escrever um discurso tão mau («Estava no Algarve em férias a ler diplomas«?) e pensar que pode manter qualquer réstia de dignidade institucional.

Pouco fica por dizer na chuva de comentários, análises e críticas a que estamos a assistir, e assistiremos durante muito tempo. A verdade é que, escavando a primeira trincheira de uma guerra entre PR e Partido Socialista, com quem teria de conviver não só no restante período deste mandato, mas também durante o próximo, Cavaco Silva desenhou o mapa político dos próximos anos. Não por ser louco, como muitos parecem achar (e não serei eu a negar liminarmente tal hipótese), mas talvez por ver uma oportunidade de regressar à chefia do PSD e do Governo a médio prazo, agora que o PS perdeu a maioria absoluta e o PSD se encontra novamente decapitado (infelizmente, convenhamos – talvez se os sociais-democratas tivessem uma liderança sustentável nada disto fosse possível).

Os principais actores/comentadores desta farsa não descartam a hipótese paranóica de escutas em Belém, mas deviam fazê-lo, porque mesmo que elas estivessem instaladas, certamente já teriam sido eliminadas por esta altura. Para além disso, estamos mais uma vez a laborar num total vazio de provas – ainda por cima, acentuado pela estratégia retórica do PR, que atribuiu as  respostas às suas dúvidas a outrem (pessoas que “consultou”). A manipulação de que diz ter sido vítima foi somente o desenrolar do cenário que ele próprio criou, através do famigerado assessor de imprensa. E quanto à hostilidade do PS, diga-se apenas que nenhum Governo, sujeito a vetos sucessivos de diplomas aprovados no Parlamento, pode deixar de questionar os motivos desses vetos. Não vem daí mal algum. «Onde está o crime?»

Pelos vistos, o PR também não sabia que uma vez enviada uma mensagem, é difícil saber o que lhe pode acontecer. Isto é válido tanto para o correio electrónico como para as fugas de informação.

Resta dizer que a Língua Portuguesa tem uma palavra para e-mail – correio electrónico.

Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Reflexão pós-leitoral/pré-eleitoral

Esta ideia bizarra de que a maioria absoluta é a única forma de governar com estabilidade e tranquilidade tem origem nos tempos do cavaquismo. Mas, valha a maioria relativa do PS o que valer, o certo é que, desde o primeiro mandato de António Guterres, ninguém conseguiu desenvolver ou demonstrar um estilo político apropriado para uma governação necessariamente muito mais agregadora do que reformista.

É sabido que, em países como a Alemanha - em que Angela Merkel teve 33,4% - parece ser possível governar sem incorrer nos riscos narcísicos de governar 4 anos sem prestar atenção aos outros partidos. E, pelo caminho, também se podem implementar reformas políticas. Tudo se joga na possibilidade de encontrar possibilidades de acordo, em conceptualizar pontes com outros eleitos. Talvez por cá as coisas se desenhem de forma diferente, com a necessidade de acordos do PS à esquerda com dois partidos (e não um), ou à direita com o CDS-PP que não se afiguram propícios a reformas. Os tempos que se aproximam serão interessantes, com a necessária correcção da situação económica frágil em que a crise está a deixar o país e com o quebra-cabeças político em que a AR ficou. Não esquecendo as autárquicas e o PR, que tem muitas explicações a dar.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

O que é o Free Software Pact? - The Free Software Pact

 

O Free Sofware Pact é uma iniciativa – em forma de petição – que procura sensibilizar os nossos representantes no Parlamento Europeu para o incentivo e protecção do Software Livre. Para além de colocar a questão na ordem do dia, inclui ainda um compromisso real com a manutenção da liberdade de criação de software que responda às necessidades da democratização da tecnologia e evite o recurso sistemático à pirataria informática para obter as necessárias ferramentas de trabalho.

The Free Software Pact is a simple document with which candidates can inform the voting public that they favor the development and use of Free Software, and will protect it from possible threatening EU legislation. The Free Software Pact is also a tool for citizens who value Free Software to educate candidates about the importance of Free Software and why they should, if elected, protect the European Free Software community.

What is the Free Software Pact? - The Free Software Pact

Inicialmente promovida pela April, associação francesa dedicada à promoção do software livre e do open source. Que, como se sabe, está em risco permanente em todo o mundo, e não apenas na União Europeia.

Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

200 anos de Charles Darwin (4)

A relevância e originalidade da obra de Darwin não se limitam à argumentação detalhada em favor de uma ideia brilhante. Encontramo-la também neste ponto essencial para a nossa própria argumentação: trata-se de uma teoria materialista. Como tal, eliminando do campo científico as ideias criacionistas (embora não de forma definitiva), o naturalista inglês e os seus sucessores abrem um paradigma explicativo com um vocabulário específico e neutro para a biologia, que viria a ser complementado pelas leis da genética mendeliana.
No contexto científico em que Darwin viveu, as suas ideias inovadoras e, em particular, as bases evolucionárias e materialistas em que assentavam nunca seriam de aceitação pacífica. Efectivamente, o ambiente era de tal forma hostil que as expressões intelectuais heterodoxas em qualquer campo encontravam sérias resistências pelas forças académicas, políticas e religiosas instaladas. Esta pode ter sido uma das razões da demora de Darwin em publicar A Origem das Espécies, optando por trabalhar outras questões e publicar outras obras. Apesar das dificuldades, o esmagador poder explicativo de Darwin transformou a evolução no exemplar perfeito da ideia científica para o século XX: elegante na simplicidade, fruto de investigação exaustiva e cuidada – ou seja, uma combinação de dedicação, ética e validade científica. Embora este ideal seja almejado por muitos, mormente numa época de industrialização e massificação da produção científica, não faltam exemplos de fraude e hybris. Aliás, esta concepção do processo científico foi colocada em causa ainda durante a primeira metade do século XX, e não iria deixar de ser atacada pela filosofia da ciência. Todavia, continua a ser parte integrante da “mitologia” da auto-imagem da comunidade científica.

200 anos de Charles Darwin (3)

Coloquei no tumblelog Movimentos alguns links para novos artigos e blogues interessantíssimos sobre Darwin e a evolução por selecção natural. A não perder.

Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

200 anos de Charles Darwin (2)

Darwin admitiria também que teriam sido as ideias de Malthus acerca da competição por recursos, correlacionadas com o povoamento, a promover a passagem das suas reflexões sobre a selecção artificial das espécies domésticas para o mundo natural e respectiva luta pela sobrevivência de descendência suficiente para perpetuar os genes. A própria publicação da sua obra principal teria provavelmente sido ainda mais demorada, não tivesse o naturalista Wallace entrado em contacto com Darwin, em 1858, para pedir conselhos acerca da publicação da sua própria obra sobre evolução (ou “descendência com modificação”, como o próprio Darwin certamente preferia chamar-lhe) das espécies.
Acerca das bases fundamentais da teoria da evolução de Darwin, escreveu Stephen Jay Gould, conhecido biólogo e defensor do darwinismo:
«(...) A base da selecção natural é a própria simplicidade: dois factos inegáveis e uma conclusão iniludível:
1. Os organismos variam, e estas variações são herdadas (pelo menos em parte) pela sua descendência».
2. Os organismos produzem mais descendentes do que aqueles que têm a possibilidade de sobreviver.
3. Em média, os descendentes que variam mais fortemente em direcções favorecidas pelo ambiente sobreviverão e propagar-se-ão. Daí que as variações favoráveis se acumulem nas populações através da selecção natural. (...)
O essencial da teoria de Darwin reside na sua afirmação de que a selecção natural é a força criadora da evolução – e não apenas o carrasco que elimina os inadaptados. A selecção natural deve, do mesmo modo, produzir os adaptados; deve construir a adaptação por fases, preservando, geração após geração, a parte favorável de um espectro aleatório de variações.» (GOULD, 1988:9. A expressão «força criadora da evolução» é particularmente infeliz, se não da parte do autor, da do tradutor.)
Duas ideias-chave que complementam esta citação: a ateleologia das variações, que é a principal objecção do darwinismo a Lamarck, e postula a aleatoriedade das variações; e, em segundo lugar, estas variações têm de ser necessariamente pequenas, e não “saltos evolutivos”. Isto permite, por um lado, a estabilidade relativa das espécies garantindo, por outro, variabilidade suficiente para “tactear” novos caminhos evolutivos. Com o acumular de variações sucessivas bem sucedidas, surgem novas espécies. A evolução não possui objectivo , e também nem sempre conduz a maior complexidade; as populações que conseguem maiores probabilidades de transmitir os seus genes sobrevivem a outras que não se encontram nestas condições. Todavia, tal não significa que não sejam extintas posteriormente.

Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

200 anos de Charles Darwin

A grande viagem de Charles Darwin (1809-1882) no navio “Beagle” decorreu entre Dezembro de 1831 e Outubro de 1836. Embora a publicação da sua magnum opus, A Origem das Espécies, só viesse a ocorrer no ano de 1859, e mesmo assim de uma forma apressada e não terminada, esta viagem marítima à volta do globo, na qualidade de naturalista e acompanhante do comandante FitzRoy[1], transformara Darwin: de defensor da verdade literal da Bíblia, passara a ser um cientista iconoclasta (embora talvez contra a sua própria vontade, o que demonstra bem a sua honestidade intelectual), revelando-se como um dos maiores exponentes do género humano.

Curiosamente, os antecedentes familiares de Charles Darwin parecem convergir sobre o seu destino científico: o seu avô paterno Erasmus Darwin (1731-1806) já propunha uma teoria de base evolutiva, partindo de um antepassado comum para toda a vida na Terra [2]. Contudo, como o próprio Charles Darwin refere na sua Autobiografia [3], o seu trabalho era demasiado literário e poético para ser mais de que uma ideia interessante. Aliás, antes de ser uma teoria, a evolução era já uma ideia relativamente comum. O outro lado da sua família, os Wedgwoods (Darwin casaria com Emma Wedgwood, sua prima direita, em 1839), era tradicionalmente anti-esclavagista, tal como o próprio Darwin.

É, no mínimo, um facto feliz, este papel de Charles Darwin na refutação das teorias rácicas e do preconceito da centralidade histórico-ontológica do ser humano na Terra. De facto, se o ser humano é mais uma espécie, entre muitas outras, cujo desenvolvimento é fortuito, contínuo e puramente material, deixa de ser possível distingui-lo do resto da Natureza com o critério teológico da sua excepcionalidade divina. Por outro lado, ao demonstrar que as raças humanas não só têm um antepassado comum como também não apresentam diferenças significativas entre si nem traços de inferioridade ou superioridade intrínsecos, contribui para a eliminação do esclavagismo e da segregação racial. As grandes batalhas em torno da evolução da espécie humana, iniciadas já com a publicação de A Origem das Espécies, intensificam-se quando Darwin dá a conhecer The Descent of Man (1871) e The Expression of Emotions in Man and Animals (1872).

[1] A propósito do estatuto de Darwin a bordo, cf. GOULD, Stephen Jay (1988), O Mundo depois de Darwin (Or. Ever Since Darwin, 1977), Trad. Paula Vitória, Editorial Presença, Lisboa, p. 23 e segs.

[2] Em duas obras: o tratado Zoonomia e na poesia de The Temple of Nature.

[3] Cf. DARWIN, Charles (2004), Autobiografia (Or. Autobiographies, 1887), Trad. Teresa Avelar, col. “Ciência”, Lisboa, Relógio d’Água, p. 39-40.

Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

II - World of Warcraft como campo de pesquisa social

O estudo dos videojogos é um campo em franco desenvolvimento. Não só a própria concepção dos jogos é objecto de estudo pormenorizado, mas - o que nos interessa mais - também o seu carácter de artefacto social. Se definirmos "artefacto social" como um objecto - físico ou informacional - que é usado por agentes sociais nas suas interacções com outros, ou na sua vida de todos os dias, percebemos que os videojogos preenchem um papel necessariamente aqui incluído. Trata-se de uma actividade lúdica, prima facies, mas também pode ser vista como actividade económica. Um MMORPG é um objecto extremamente complexo a este nível: exige um conjunto de estruturas em perfeita articulação permante - trata-se de um verdadeiro "work in progress" com um impacto económico considerável. Seria demasiado fastidioso enumerar todos os elementos, pelo que ficamos com apenas um número: em todo o mundo, o WoW (Blizzard) tem hoje em dia mais de 11 milhões de subscritores.

Muitas vezes mimetiza a vida, outras pode ser interpretado como uma fuga deliberada ao real. De um modo geral, não é de esperar que as opiniões divirjam muito do modelo habitua, que interpreta o WoW como uma espécie de estupefaciente. Esta visão está presente, por exemplo, em notícias como esta, que toca no habitual lugar comum da dificuldade de distanciamento sentida por muitos jogadores. Isto é evidente e resulta de uma dinâmica simples semelhante à que leva, por exemplo, a que qualquer equipa de futebol amadora mantenha uma certa operacionalidade ao longo do tempo: o sentimento de um dever (lúdico, é verdade, mas também reflexo de uma comunhão de experiências) para com a equipa. Sendo o WoW colaborativo - sobretudo no seu conteúdo mais avançado - percebe-se como é fácil ser enredado nesta dinâmica.

Toda uma outra questão se coloca a propósito da economia do gold farming, resumida, cada vez mais, a um sector de ciberproletários em países em vias de desenvolvimento. Daí a subcategoria chinese gold farming e as análises da sua dinâmica em termos da própria divisão internacional do trabalho.


Aqui está alguma da bibliografia disponível sobre o WoW.

O artigo sobre epidemiologia (Lofgren & Fefferman 2007) já se tornou um clássico.

Ducheneaut, N. & Moore, R.J., 2004a. Gaining more than experience points: Learning social behavior in multiplayer computer games. Em Conference proceedings on human factors in computing systems (CHI2004): Extended Abstracts, April. pp. 24-29. link

Ducheneaut, N. & Moore, R.J., 2004b. The social side of gaming: a study of interaction patterns in a massively multiplayer online game. Em Proceedings of the 2004 ACM conference on Computer supported cooperative work. ACM New York, NY, USA, pp. 360-369. DOI: 10.1145/1031607.1031667

Ducheneaut, N., Moore, R.J. & Nickell, E., Designing for sociability in massively multiplayer games: an examination of the “third places” of SWG. Em Conference Proceedings for Other Players. link

Ducheneaut, N. et al., 2007. The life and death of online gaming communities: a look at guilds in world of warcraft. Em Proceedings of the SIGCHI conference on Human factors in computing systems. ACM Press New York, NY, USA, pp. 839-848. link DOI

Ducheneaut, N., Yee, N. et al., 2006. "Alone together?": exploring the social dynamics of massively multiplayer online games. Em Proceedings of the SIGCHI conference on Human Factors in computing systems. Montréal, Québec, Canada: ACM, pp. 407-416. link DOI

Ducheneaut, N., Yee, N. et al., 2006. Building an MMO With Mass Appeal: A Look at Gameplay in World of Warcraft. Games and Culture, 1(4), 281-317. DOI: 10.1177/1555412006292613

Golle, P. & Ducheneaut, N., 2005. Preventing bots from playing online games. Computers in Entertainment (CIE), 3(3), 3-3. link DOI

Lofgren, E.T. & Fefferman, N.H., 2007. The untapped potential of virtual game worlds to shed light on real world epidemics. The Lancet Infectious Diseases, 7(9), 625-629. DOI:10.1016/S1473-3099(07)70212-8

Williams, D. et al., 2006. From Tree House to Barracks: The Social Life of Guilds in World of Warcraft. Games and Culture, 1(4), 338. DOI: 10.1177/1555412006292616

Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

Apatia

Não tenho visto grandes manifestações de solidariedade para com os portugueses que, na prática, foram escorraçados do Reino Unido. Enquanto, por lá, se tenta, mal ou bem, defender os postos de trabalho para os cidadãos do próprio país, por cá temos ombros a encolher. É impossível defender totalmente a legitimidade das manifestações, que está contra a liberdade de emprego num mercado que se quer único. À medida que o fenómeno for alastrando, é de esperar alguma reacção. Todavia, já virá tarde e servirá apenas para disfarçar a incapacidade de apoiar as pessoas que foram forçadas a regressar para onde não queriam estar.